Ir∴ João Apolinário Pascoal. M∴ M∴

Um Irmão chama a atenção para um trecho do Telhamento do Rito Moderno com grande significado simbólico, além de grande impacto na vida pessoal – este segundo sentido mais ressaltado pelo Irmão. Corretamente, esse Irmão aponta para o impacto que o arsenal maçônico pode – e deve! – ter na vida de cada um de nós, para além do convívio em Loja. Para isso, segundo o Irmão, é preciso dissociar a luta contra as paixões do exercício autoritário da hierarquia, pois – sempre segundo o Irmão – haveria na Ordem um hábito de utilizar – erroneamente! – posições de autoridade e antiguidade como (pseudo)instrumento de combate às paixões.

Ora, há que se diferenciar “autoridade” de “autoritarismo”. A primeira não encontra seu fundamento no exercício da violência – embora possa, por vezes de maneira até legítima, empregá-la (exemplo: avaliação docente, provas, notas, sanções escolares) -, mas antes numa relação de reconhecimento. Reconhece-se a autoridade ao constituir seu lugar, pois autoridade é algo que se atribui a alguém, não algo que se reivindica de per se – veja-se, por exemplo, como a quebra de reconhecimento tem afetado a autoridade de tantas figuras públicas entre nós. Nesse sentido, não há autoridade que sobreviva à prova do tempo e que sustente esse reconhecimento apenas com ações reiteradas de violência. Quem assim age, converte-se em mero tiranete e merece repúdio e ridículo.

Mas não atribuímos autoridade apenas a pessoas; também a conferimos a instituições ou mesmo a textos. Esse último aspecto é de grande importância para nossa prática maçônica, visto que nos reunimos em torno de um texto: o ritual.

Novamente, o ritual não pode ser visto como um monólito inquestionável que deve inspirar apenas obediência – se assim fosse, seria apenas mais um instrumento autoritário desprovido de valor. Mas se não reconhecermos nele algo de bom, de louvável, qual o sentido de se reunir em torno desse script? Se o ritual é baboseira de reacionários esclerosados, então por que não ir direto ao copo d’água? O ritual só serve como engodo para recrutamento?

Não penso que seja o caso, nem que seja a opinião de nenhum dos Irmãos que compõem nossas Lojas. Pelo contrário, há no ritual um valoroso repositório simbólico, do qual podemos – e devemos! – lançar mão para “vencer nossas paixões”, no sentido corretamente sublinhado pelo Irmão. Claro que esse conjunto demanda de nós interpretação, crítica e reflexão, e sugiro aqui uma brevíssima, à guisa de conclusão:

As palavras que seguem a expressão destacada pelo Irmão – “vencer minhas paixões” – são as seguintes: submeter minha vontade. Enquanto a primeira [expressão] remete ao esforço de se livrar dos obstáculos ao livre-pensar e ao exercício da razão – dentro da tônica Iluminista que pauta nosso Rito (para o bem e para o mal) -, a segunda parece sugerir uma disciplina a um só tempo mental e física. Submeter minha vontade a quê? Qual o outro pólo dessa submissão? E mais: para que fazê-lo? O que parece estar sugerido aí é que seria necessário resistir ao impulso, ao desejo imediato, à vontade cega, justamente para fazer novos progressos na Maçonaria – que pode ser lido, na tônica do racionalismo francês que nos é própria, enquanto praticantes do Rito Moderno, como resultado da equação “vencer as paixões + submeter a vontade”. Não uma submissão à vontade do outro, não um colocar-se à mercê, por exemplo, do Venerável ou de um Mestre Instalado; mas submeter sua vontade ao exercício de sua própria razão.

Pois bem, que tal um exemplo? Qual seria o papel do silêncio nisso tudo? Seria somente um instrumento de opressão, dominação e violência que sedimenta a estrutura hierárquica de uma Loja ou podemos lhe conferir expressão positiva? E se o silêncio dos Aprendizes, Companheiros e – por que não? – Mestres for pensado como exercício para precisamente vencer as paixões e de quebra submeter a vontade? Contra a vontade, contra o impulso de falar – esse imperativo constante na vida moderna (há que opinar, comentar, reagir, postar sobre tudo!) – o silêncio. Pois se a vontade é de rebater de bate-pronto, imediatamente, então o que faremos nada mais é do que repetir pré-conceitos e pré-concepções, uma vez que não dispomos do tempo necessário à reflexão e à mudança de opinião. O silêncio pode ser visto positivamente como condição de possibilidade para a abertura ao novo, como uma ferramenta da práxis iniciática.

Iniciar-se, abrir os olhos, ver a Luz….calar-se. Permitir que os olhos se acostumem à nova realidade, que os ouvidos se familiarizem com as novas palavras, que a mente processe – reflita – lentamente sobre as novas informações. Sentir o desconforto, o espanto, o mistério, a incompreensão. Então, falar. Falar com o peso dessa experiência vivida, com a modéstia e a humildade que ela implica. Já não mais a fala banal e automática do cotidiano, mas uma fala que carrega em si o peso da experiência da reflexão silenciosa.

Ouvir uma palestra, ruminar, digerir, calar-se, deixar reverberar em mim a voz do outro. Depois, falar, ainda que para recusar, refutar, ridicularizar, pouco importa.

Vencer minhas paixões, submeter a minha vontade. Um dia, talvez, fazer progressos – dentro e fora da Maçonaria. Ou jogar fora a ideia mesma de progresso! Quem sabe? Eu, por enquanto, só reflito.

A todos, estendo meu tríplice e fraternal – e silencioso! – abraço.