Por Cícero Ramos ***

Em 16 de abril de 1746, na Batalha de Culloden, na Escócia, William Boyd, conde de Kilmarnock, combateu ao lado dos jacobitas, partidários da família Stuart. Seu filho James estava no exército adversário, servindo no 21º Regimento de Infantaria do governo britânico. Kilmarnock havia sido Grão-Mestre da Grande Loja da Escócia entre 1742 e 1743. A divisão daquela família refletia uma disputa pela Coroa britânica iniciada mais de meio século antes.
O conflito remontava à Revolução Gloriosa de 1688, quando Jaime II foi afastado do trono inglês e substituído por Guilherme III e Maria II. Os partidários da família Stuart, conhecidos como jacobitas, continuaram defendendo seu retorno ao trono. Em 1714, com a morte da rainha Ana, George I, da Casa de Hanover, assumiu a Coroa britânica. No ano seguinte, os jacobitas organizaram uma rebelião que acabou derrotada. Outras tentativas de restauração ocorreriam nas décadas seguintes, algumas com apoio estrangeiro.
A disputa também tinha uma dimensão religiosa. Os Stuart eram associados à possibilidade de restauração de uma monarquia católica, enquanto a sucessão hanoveriana assegurava a continuidade de uma monarquia protestante. Para os huguenotes, protestantes franceses refugiados na Inglaterra após décadas de perseguições, essa diferença era especialmente importante. Entre eles estavam John Theophilus Desaguliers e Charles Delafaye, que viriam a participar da vida maçônica londrina.
Delafaye era subsecretário de Estado e participava do combate às conspirações jacobitas. Desaguliers, filósofo natural e membro da Royal Society, mantinha relações com aristocratas e funcionários próximos ao governo. George Payne, outro personagem importante na formação da Grande Loja de Londres, também circulava nesse ambiente favorável à Casa de Hanover. Nas Constitutions de 1723, os maçons eram orientados a respeitar os poderes civis e a não participar de conspirações contra o governo. O texto também estabelecia uma posição de tolerância religiosa, compatível com as preocupações dos Whigs e dos refugiados protestantes. Isso, porém, não significava que todos os integrantes das lojas tivessem as mesmas preferências políticas.
Um episódio ocorrido em 24 de junho de 1723 revela tensões na direção da Grande Loja. Philip, duque de Wharton, encerrava seu período como Grão-Mestre quando o conde de Dalkeith foi escolhido para sucedê-lo. A indicação de Desaguliers para o cargo de Grão-Mestre Adjunto (Deputy Grand Master) recebeu 43 votos favoráveis e 42 contrários. Embora presidisse a reunião e apresentasse a indicação em nome do novo Grão-Mestre, Wharton votou contra Desaguliers e deixou a assembleia sem cerimônia. Cinco dias depois, James Anderson escreveu ao duque de Montagu relatando que Wharton havia procurado reunir opositores de Desaguliers. A correspondência confirma a disputa, mas não esclarece as motivações de cada participante. Wharton mais tarde se aproximou abertamente da causa jacobita, embora não seja possível atribuir essa votação à disputa dinástica apenas com base nos documentos examinados.
A presença de jacobitas na Maçonaria também aparece nos registros de lojas frequentadas por partidários dos Stuart. Jaime Francisco Eduardo Stuart, conhecido como Velho Pretendente, mantinha sua corte no exílio, em Roma, onde funcionou uma loja maçônica ligada ao seu círculo. Entre seus frequentadores estava George Seton, conde de Winton, registrado em 1735. Em 20 de agosto de 1737, a loja recebeu John Murray de Broughton, que mais tarde atuaria como secretário de Carlos Eduardo Stuart durante a rebelião de 1745. Em Londres, uma relação de membros da loja Bear and Harrow inclui Sir William Gordon de Park, participante da mesma rebelião, que morreu no exílio, em Douai, na França, em 1751. A filiação de Gordon confirma a presença de um jacobita naquela loja, mas não demonstra que seus demais integrantes apoiassem a restauração dos Stuart.
Na Escócia, a tentativa de restauração ganhou força em 1745, quando Carlos Eduardo Stuart, filho do Velho Pretendente, desembarcou para reunir seus partidários. William Boyd, conde de Kilmarnock, aderiu à rebelião, assim como seu filho Charles. James permaneceu nas forças do governo, enquanto outro filho, William, servia na Marinha Real. A campanha terminou com a derrota jacobita em Culloden. Kilmarnock foi capturado e executado em agosto de 1746, enquanto Charles conseguiu escapar.
Os efeitos da guerra aparecem nas atas de diversas lojas escocesas. Em 20 de dezembro de 1745, a St. John’s Old Kilwinning, em Inverness, registrou uma reunião com poucos participantes, pois vários membros haviam ingressado nas companhias militares independentes que apoiavam o governo. Em Montrose, as atas voltaram a aparecer em agosto de 1746; em Inverness, em dezembro. Arbroath e Brechin retomaram seus registros em 1747, e Glamis, em 1748. Em Dundee, a documentação examinada indica que a atividade maçônica regular só foi retomada em 1756. As interrupções variaram de uma localidade para outra, acompanhando as diferentes condições enfrentadas pelas lojas durante e depois da rebelião.
Em Falkirk, os registros apresentam um desfecho particular para a história dos Boyd. Em 1749, James tornou-se Mestre da loja, tendo Charles como Primeiro Vigilante e William como Segundo Vigilante. Os três irmãos, cujas trajetórias militares haviam seguido caminhos diferentes durante a rebelião, passaram a ocupar juntos os principais cargos da oficina. James permaneceu na direção da loja de 1749 a 1753 e, em 1751, foi eleito Grão-Mestre da Grande Loja da Escócia. A guerra havia separado suas escolhas políticas, mas não impediu que voltassem a trabalhar na mesma loja maçônica.
*** Cícero Ramos é engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).
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