Por Philemom.

A Maçonaria é universalmente definida como “um sistema de moralidade ilustrado por alegorias e velado por símbolos”. Aqueles que cruzam as colunas de uma Loja Maçônica sabem que cada gesto, cada insígnia e cada palavra pronunciada em Loja possuem um propósito elevado: o desbaste da Pedra Bruta e a busca incessante pela Verdade. Fora dos Templos, a atuação social da Ordem reflete esse compromisso, manifestando-se em jantares, celebrações e nos tradicionais bailes de gala, momentos em que a família maçônica se reúne para celebrar a fraternidade.

É imperativo registrar que a organização de um evento de grande porte exige dedicação, sacrifício de tempo familiar e inegável boa-vontade por parte dos Irmãos organizadores. A crítica que aqui se propõe não visa, de forma alguma, desmerecer o esforço hercúleo desses obreiros em proporcionar momentos de lazer, mas sim provocar uma reflexão acadêmica e fraterna sobre a evolução dos costumes e a necessária interação entre as nossas práticas sociais e a nossa secular doutrina. Contudo, a harmonia que se exige dentro das oficinas deve, por obrigação moral, refletir-se nas ações profanas da Ordem. A inclusão de atrações de entretenimento baseadas na sexualização de corpos, como shows de passistas em trajes seminus em eventos de gala organizados por corpos maçônicos acende um debate necessário sobre a coerência institucional.

Para avaliar a adequação de tais escolhas, não é necessário recorrer a moralismos externos, mas sim confrontá-las diretamente com os comprometimentos solenes que todo maçom assume.

É máxima maçônica das mais repetidas aquela que afirma: “Nos reunimos para combater a Tirania, a Ignorância, os Preconceitos e os Erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade”

A presença de um espetáculo que reduz a mulher – historicamente, a mulher negra – a um objeto de mero deleite visual e estético caminha na contramão desse princípio. A exibição da “mulata seminua” como produto de entretenimento é um dos maiores erros e preconceitos herdados do período colonial brasileiro, que perpetua a objetificação de corpos e o racismo estrutural.

Esse tipo de cena em um baile organizado pela maçonaria, a instituição, ainda que de forma involuntária, flerta com a Ignorância cultural e valida um Preconceito histórico que deveria combater. Não há Justiça em manter molduras sociais que diminuem a dignidade humana em nome da distração.

O compromisso de “promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos à Virtude e cavando Masmorras ao Vício” é a bússola moral do maçom. A “Virtude”, no sentido filosófico, exige temperança, respeito mútuo e a busca pelo que eleva o espírito humano. O “Vício”, por sua vez, alimenta-se dos excessos e das futilidades.

Um evento de gala, por si só, é uma exaltação da ordem, da sofisticação e do respeito à família, valores profundamente ligados à Virtude. Introduzir uma atração baseada no apelo carnal e na nudez em um ambiente familiar e institucional desestabiliza esse arranjo. Cria-se um ambiente de dissonância doutrinária: o mesmo maçom que no Templo jura defender a honra das famílias e combater as paixões vis, no salão social aplaude a exposição corporal mercantilizada.

Se a Maçonaria é feita de símbolos, o traje de um evento de gala também o é. O terno, a gravata e o vestido longo simbolizam o respeito à solenidade, a igualdade formal e a elegância. Há uma quebra severa de estética e linguagem quando o rigor do traje contrasta violentamente com a nudez da atração contratada. Se o ambiente exige a formalidade do traje, a sinergia do espaço deveria exigir o mesmo nível de elevação artística e cultural.

A cultura nacional e o samba são manifestações belíssimas e legítimas. A própria Maçonaria pode e deve celebrar a Pátria exaltando o Carnaval. No entanto, isso pode ser feito através da grandiosidade de uma bateria de escola de samba, do lirismo do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira (que se apresentam com trajes de gala impecáveis) ou de apresentações folclóricas ricas em história.

O maçom vive a sociedade e celebra as alegrias da vida. Todavia, o preço da distinção maçônica é a “eterna vigilância” sobre as nossas próprias atitudes.

Se desejamos continuar sendo “construtores sociais” nossos eventos públicos precisam ser o espelho da nossa retidão interna. Permitir que o entretenimento profano esvazie o vigor dos nossos princípios não é apenas uma incoerência de protocolo; é, acima de tudo, permitir que uma fresta do Vício se abra no Templo que juramos erguer à Virtude.


Nota:
Philemon é pseudônimo adotado por um Mestre Maçom regular, em respeito ao debate institucional e ao princípio de que as ideias devem valer por si mesmas, acima das personalidades.