Por Luiz Sergio Castro

O templo está de pé. Os rituais continuam. Os discursos exaltam a fraternidade. Mas, por trás das colunas, algo preocupante acontece: Irmãos que deveriam caminhar juntos transformam divergências em inimizades.
Discordar virou ofensa. Pensar diferente passou a despertar suspeitas. E a liberdade de consciência, tantas vezes proclamada como um dos pilares da Maçonaria, parece incomodar justamente aqueles que mais deveriam defendê-la.
O problema não é a divergência. É a incapacidade de conviver com ela.
A Maçonaria reúne homens livres, não indivíduos obrigados a pensar da mesma maneira. Seu propósito não é fabricar unanimidades, mas oferecer condições para o aperfeiçoamento humano por meio do estudo, do diálogo e do exercício da tolerância.
Quando um Irmão é julgado menos pelo seu caráter do que pelas ideias que defende, alguma coisa está fora do lugar. Quando a lealdade a um grupo se torna mais importante do que os princípios da Ordem, a busca pela verdade cede espaço à disputa por poder e influência.
A fraternidade, então, deixa de ser um compromisso e vira uma conveniência: somos Irmãos enquanto concordamos; quando discordamos, tornamo-nos adversários.
Isso não é fraternidade. É apenas afinidade disfarçada de virtude.
Quem está realmente no comando?
Imagine um trono ocupado pela intolerância. Ao redor, homens ajoelhados, convencidos de que estão defendendo seus princípios.
A imagem provoca uma pergunta incômoda: a intolerância depende apenas de quem a pratica ou também daqueles que a justificam?
Ela cresce quando alguém aplaude a exclusão de um Irmão porque ele pensa diferente. Ganha força quando o silêncio protege a injustiça e quando atitudes desrespeitosas são toleradas porque favorecem os interesses do próprio grupo.
O mais perigoso é que ninguém se considera intolerante. A intolerância está sempre no outro. A nossa, quando existe, recebe nomes mais nobres: convicção, coragem, fidelidade ou defesa de valores.
Assim, cada um acredita estar protegendo a Loja de seus adversários, sem perceber que pode estar contribuindo para destruí-la por dentro.
A intolerância não precisa conquistar o templo à força quando encontra quem lhe ofereça o trono.
Fraternidade não é torcida organizada
Uma Loja maçônica não pode funcionar como uma torcida organizada, dividida entre aliados e inimigos, na qual a opinião do grupo vale mais do que a consciência individual.
O Maçom não precisa concordar com seu Irmão. Precisa respeitá-lo.
Tolerar não significa aceitar tudo, abandonar convicções ou silenciar diante de injustiças. Significa compreender que a divergência, quando conduzida com respeito, não representa necessariamente uma ameaça. Pode ser justamente o caminho para ampliar horizontes e corrigir equívocos.
A liberdade de consciência só tem valor quando também protege as ideias de que discordamos.
Caso contrário, defendemos a liberdade apenas para nós mesmos — e isso não é liberdade. É privilégio.
O verdadeiro teste da fraternidade não acontece quando estamos cercados por aqueles que pensam como nós. Acontece quando precisamos estender a mão a alguém cujas ideias nos contrariam.
É fácil falar de união entre semelhantes. Difícil é preservar o respeito diante das diferenças.
Antes de acusar, examine a própria consciência
A Maçonaria ensina o aperfeiçoamento do indivíduo. Mas como aperfeiçoar a si mesmo quando toda a energia é empregada em apontar os defeitos dos outros?
Antes de condenar a intolerância alheia, cada um deveria responder a algumas perguntas:
Defendo a liberdade de consciência mesmo quando discordam de mim?
Consigo respeitar um Irmão sem exigir que ele compartilhe minhas opiniões?
Condeno atitudes injustas independentemente de quem seja o responsável?
Contribuo para o diálogo ou alimento divisões?
Essas perguntas não exigem respostas públicas. Exigem sinceridade.
O trabalho maçônico perde parte de seu sentido quando os símbolos são compreendidos, mas os princípios não são praticados; quando se fala em fraternidade dentro do templo, mas se cultiva hostilidade fora dele.
Não basta conhecer os instrumentos do construtor. É preciso saber usá-los para corrigir as próprias imperfeições.
O templo começa a ruir por dentro
Uma Loja não se enfraquece apenas por problemas administrativos ou pela ausência de novos membros. Também se fragiliza quando seus integrantes perdem a capacidade de dialogar, quando a suspeita substitui a confiança e quando a divergência passa a ser tratada como deslealdade.
As paredes podem permanecer intactas. Os aventais podem continuar sendo vestidos. Os rituais podem ser executados com perfeição.
Mas nenhuma formalidade substitui o respeito. Nenhum discurso compensa a ausência de fraternidade.
Reconstruir o templo exige mais do que preservar suas estruturas: exige recuperar o compromisso com os valores que justificam sua existência.
E essa reconstrução começa quando cada Irmão deixa de perguntar apenas quem está destruindo a Loja e passa a examinar a própria contribuição para o problema.
Afinal, o que ameaça mais uma Loja: a intolerância que ocupa o trono ou os Irmãos que se ajoelham diante dela?
E você: está combatendo a intolerância ou apenas aquela que contraria suas próprias convicções?
Talvez o primeiro passo para reconstruir o templo seja abandonar a certeza de que a culpa está sempre no outro.
Porque, quando a intolerância governa e a fraternidade se cala, o templo pode continuar de pé — mas seus princípios já começaram a desmoronar.
Fonte: Revista “O Malhete” Novembro 2026
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